Integrante da Torcida Organizada do Bahia sugeriu apagar mensagens para evitar denúncia sobre sessões de tortura em Salvador

  • 22/10/2026
(Foto: Reprodução)
Presidente da Bamor convoca integrantes e diretores para tortura de vítima Um integrante da Bamor, maior torcida organizada do Bahia, sugeriu apagar conversas de um grupo de WhatsApp para evitar que mensagens fossem utilizadas como provas após sessões de tortura que teriam sido realizadas na sede da entidade, em Salvador. A orientação foi identificada em um relatório do Ministério Público da Bahia (MP-BA), que investiga a participação de membros da diretoria nos crimes. “Melhor apagar tudo essas por aí, viu? Essas paradas aí porque, querendo ou não, vai que essa desgraça denuncia aí, sei lá. […] Inclusive apagar esse grupo aqui as conversa”, afirmou o integrante em uma mensagem de áudio. 'Só me arrependi de não bater mais': integrantes da Bamor comentaram agressões e discutiram uso de faca O diálogo foi encontrado em um celular apreendido durante a Operação Inquisição, realizada em 28 de setembro, que resultou na prisão de 10 pessoas, entre elas o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, e o vice-presidente, Luciano da Silva Venâncio. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Segundo as investigações, dois homens foram submetidos a sessões de tortura física e psicológica na sede da Bamor, no bairro de Nazaré, nos dias 17 e 18 de julho deste ano. Em 2 de outubro, o MP-BA denunciou os 10 por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. As vítimas foram convocadas sob o pretexto de prestar esclarecimentos sobre supostas irregularidades financeiras envolvendo o sistema de gestão de associados da entidade. As agressões teriam durado cerca de quatro horas em cada episódio. O relatório do MP-BA, obtido pelo g1 e pela TV Bahia, mostra que os investigados não apenas discutiram a possibilidade de excluir registros das conversas, como também demonstraram preocupação com a identificação dos responsáveis pelas agressões. As mensagens foram trocadas no grupo “Diretoria Bamor”, composto por 19 participantes, após dois homens serem submetidos a sessões de tortura física e psicológica. A sugestão de apagar as mensagens partiu de um interlocutor identificado como “Kakaroto Drt”, apelido associado a Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing da Bamor e um dos denunciados pelo MP-BA. Na gravação, Ricardo demonstrou receio de que a vítima denunciasse o ocorrido e sugeriu a exclusão dos registros, incluindo o histórico do próprio grupo de WhatsApp. A preocupação, no entanto, não foi compartilhada por todos os participantes da conversa. O integrante identificado como Daniel, diretor da sede da Bamor, respondeu que não havia motivo para temer a existência de provas. Na mesma mensagem, ele admitiu que a vítima havia sido agredida pelo grupo. “Não tem negócio de prova não, mano, provar o quê, véi? A gente pegou ele 'mermo', mano, que ele é ladrão, 'tava' roubando a torcida, então a gente meteu a desgraça nele e já foi”, afirmou. Em outra mensagem, um dos investigados chegou a dizer que a vítima deveria ter sido morta. As declarações foram registradas após as agressões e fazem parte do material analisado pelo Núcleo de Extração e Análise do MP-BA. Presidente orientou que envolvidos não fossem identificados individualmente A preocupação com a responsabilização dos envolvidos também aparece em mensagens enviadas pelo presidente da Bamor, Matheus Pires Castro, em 19 de julho, um dia após o segundo episódio de tortura investigado pelo MP-BA. Em um áudio encaminhado às 11h35, Matheus orientou os integrantes a atribuírem as agressões à diretoria da torcida, sem apontar quem havia praticado cada ato. “Mas é isso, irmão, deixa eu te falar: 'cê' tem que falar que quem pegou foi a diretoria, não foi A, B, nem C, não. Teve facada? Teve. Quem foi que deu? A diretoria. Teve tiro? Teve. Quem deu? A diretoria. […] Tudo que a gente faz aqui é a diretoria. Não existe a pessoa física, não, entendeu?”. Na sequência, o presidente reforçou que todos deveriam manter a mesma versão sobre os episódios. "(...) Não é A, nem B. Porque isso aí que gera uma briga pessoal, isso aí que cria tumulto", afirmou. Celular de vítima também foi discutido em conversas Outro trecho do relatório mostra que integrantes da torcida discutiram como manter acesso às mensagens de um celular que, segundo a interpretação dos investigadores, pertenceria a outra pessoa. Em 18 de julho, às 8h26, outro participante orientou Matheus Pires Castro a desligar a conexão de internet do aparelho. “Desliga o wi-fi pq já já ele recupera o chip”, escreveu. Em seguida, explicou que a recuperação do número telefônico poderia impedir que os integrantes continuassem acessando as conversas. “E quando ele colocar em outro celular você vai perder o acesso as conversas aí [...] Se tiver sem internet, o WhatsApp segue aberto”, afirmou. 'Quem tiver nojo de sangue, não vá': áudios mostram presidente da Bamor convocando integrantes para sessões de tortura na Bahia Integrante afirmou ter quebrado braço de vítima Uma das mensagens que constam no relatório foi enviada às 9h41 do dia 18 de julho, por "Kakaroto Drt", já identificado como o diretor de marketing Ricardo Henrique Almeida da Silva. Ao responder a uma mensagem de outro integrante, "Daniel", Ricardo afirmou: "Só me arrependi de não bater mais. Mas um braço deixei quebrado". Na sequência, o integrante sugeriu que a análise de um celular poderia revelar outras supostas irregularidades. "Se cavar aí, acha mais coisa nesse celular. Nós pega mais ratos", diz o trecho. Logo depois, às 9h42, os participantes continuaram comentando as agressões. Em uma das gravações, um interlocutor identificado como "Mts", associado ao presidente da torcida, Matheus Pires Castro, mencionou a utilização de uma barra durante o episódio. "Rapaz, Piton pegou aquela barra ali, mano. Na hora que ele levantou, rapaz, pensei que ele fosse arrancar o teto". O diálogo é apontado pelo Ministério Público como uma referência às agressões praticadas contra uma das vítimas. As conversas também trazem referências a uma faca. Presidente ameaçou repetir tortura e arrancar membros Matheus Pires Castro, presidente da Bamor, maior torcida organizada do Bahia, é um dos presos Reprodução/Redes Sociais Ainda em 19 de julho, às 11h38, Matheus Castro enviou novos áudios ao grupo. Nas gravações, afirmou que o caso de "Binho", apelido usado para se referir a uma das vítimas, estava encerrado, mas ameaçou aplicar punições ainda mais violentas caso surgissem novas suspeitas de desvios financeiros. "Quem a gente pegar roubando agora vai ser pior do que foi com Binho. [...] Se for preciso, a gente vai arrancar uma mão, vai arrancar um pé", diz a mensagem. Em outra gravação, o presidente afirmou que a diretoria assumia as agressões e que a vítima havia sido expulsa da torcida. "A gente fez isso aí mesmo, acabou. Entendeu? Quem não gostar, vai lá na sede. [...] Binho tá expulso, Binho roubou e pronto". As declarações sobre supostos desvios financeiros representam acusações feitas pelos próprios integrantes da torcida e não comprovam que a vítima tenha cometido qualquer irregularidade. O relatório também registra uma ameaça posterior atribuída a Matheus, após comentários da vítima sobre a duração da tortura. Em um áudio, ele afirmou que, caso houvesse um novo episódio, as agressões durariam o dobro do tempo. "Avisa a ele que se não aprender, próxima vez é 8 horas, viu? Não vão ser 4 não, vão ser 8!", indica mensagem de Matheus. 'Quem tiver nojo de sangue, não vá' "Vamos pegar até uns alicates para a gente arrancar as unhas dele". A frase faz parte de áudios gravados por Matheus Pires Castro, presidente da Bamor, e enviados a diretores e integrantes do grupo. Nas mensagens, ele convocava pessoas para sessões de tortura física e psicológica. (Confira áudio no início da matéria) Em uma das gravações, Matheus Castro afirmou que quem tivesse nojo de sangue não deveria comparecer ao local. Em outra, ele disse que uma das vítimas precisava apanhar para servir de exemplo. As mensagens também mostram o presidente minimizando o risco de consequências policiais e ameaçando provocar ferimentos graves. Nas gravações, o presidente da Bamor falou sobre as agressões que pretendia promover e tentou afastar integrantes que demonstrassem receio de participar das sessões de violência. Em um dos trechos, ele minimizou a possibilidade de consequências para os envolvidos: "Porra nenhuma, meu irmão, que nada. Vai dar porra nenhuma, irmão". Marcas nas costas de uma das vítimas Reprodução/TV Bahia O presidente também orientou que integrantes contrários às agressões não compareçam à reunião e afirmou que a vítima deveria sair do local com ferimentos graves. "Então, quem for amigo, quem ficar com pena, quem falar que pode dar merda porque a família pode correr atrás, que pode dar polícia, nem vá para a reunião. Deixa que quem quiser resolve, entendeu? Porque amanhã ele vai ter que sair com a mão esmagada para, de lá, ele fazer cirurgia. Tem que se foder e apanhar mesmo para servir de exemplo". Em outro áudio, ele fez referência à possibilidade de uma cena violenta: "Amanhã a gente vai pegar ele daquele jeito. Quem tiver nojo de sangue não vá, porque a gente vai pegar ele e vai ser uma cena triste para ficar de exemplo". Depoimentos revelam tortura dentro da sede da torcida da Bamor Em uma das falas mais explícitas, ameaçou provocar um ferimento na cabeça da vítima: "A gente vai abrir logo a cabeça dele lá no meio, essa desgraça". A defesa de Matheus Pires e Luciano Venâncio, vice-presidente da Bamor, declarou em nota "que seus clientes são inocentes" e que "todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas". Suspeitos foram denunciados Suspeitos foram denunciados pelo MP-BA Reprodução/TV Bahia Em 2 de outubro, o Ministério Público denunciou os 10 investigados. Os denunciados são: Matheus Pires Castro, presidente da Bamor; Luciano da Silva Venâncio, vice-presidente; Gabriel Pereira Silva, diretor-geral; Daniel Sena Duarte, diretor de sede; Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing; Diego Allan Conceição Sacramento, diretor de patrimônio; Ivã Cleiton de Jesus Santos, diretor de bateria; Luiz Wagner da Silva Santana, diretor de sede; Alan Rafael Regis Alves de Aquino, diretor financeiro; Fernando Santana Esquivel, policial militar apontado como integrante da torcida organizada. Segundo a promotora de Justiça Thelma Leal, do MP-BA, todos os integrantes presos teriam participado das agressões, embora em diferentes graus. "O presidente e o vice estão presos. Todos participaram ativamente dos atos de tortura, de alguma forma, com maior ou menor proporção. Os relatos das vítimas dão conta que todos que estão presos participaram", afirmou. A promotora ressaltou que as prisões atingiram integrantes da cúpula da torcida e disse esperar que a entidade passe por uma mudança de liderança e adote medidas para evitar novos episódios de violência. Sede da Bamor, no bairro de Nazaré, em Salvador Reprodução/TV Globo Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/10/22/integrante-da-bamor-sugeriu-apagar-mensagens-para-evitar-denuncia.ghtml


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